CLIMA FECHOU: ação de Samuel Júnior contra Débora Santana sofre revés, e parecer do MPE aponta consentimento prévio

Disputa eleitoral expõe tensão nos bastidores ligados às Assembleias de Deus na Bahia, enquanto documentos apresentados à Justiça contradizem a tese de uso indevido da imagem do deputado.

O clima esquentou nos bastidores da política evangélica baiana. Uma representação eleitoral apresentada pelo deputado estadual Samuel Júnior (PL) contra a candidata a deputada federal Débora Santana (PSDB) acabou tomando um rumo diferente daquele pretendido inicialmente pelo parlamentar.

Samuel Júnior ingressou na Justiça Eleitoral alegando que sua imagem teria sido utilizada de maneira unilateral em material de campanha de Débora Santana, criando, segundo sua versão, uma falsa percepção de apoio ou de uma “casadinha” eleitoral.

Porém, a documentação apresentada pela defesa mudou o cenário.

Na decisão preliminar compartilhada com o Cidade Já News, a Justiça registrou que as conversas juntadas ao processo demonstravam, “em análise preliminar”, a existência de tratativas diretas e conhecimento prévio de Samuel acerca da confecção, compartilhamento e distribuição regional do material conjunto.

A decisão também apontou que a arte original continha os dados eleitorais do próprio candidato, inclusive o CNPJ de sua campanha. Diante desses elementos, o pedido de tutela de urgência formulado por Samuel Júnior foi INDEFERIDO.

Ministério Público vai além

O caso ganhou ainda mais peso com a manifestação da Procuradoria Regional Eleitoral na Bahia.

No documento identificado como PR-BA-MANIFESTAÇÃO-17399/2026, o Ministério Público Eleitoral sustenta que as provas anexadas aos autos indicariam que o material foi articulado conjuntamente e que Samuel tinha conhecimento prévio da elaboração da arte e da logística de distribuição.

O parecer afirma ainda que a propaganda teria refletido uma aliança existente naquele momento e considera que eventual rompimento político posterior não transformaria retroativamente aquele material em propaganda irregular.

Ao final, o Ministério Público Eleitoral se manifesta pela improcedência da representação e pede a aplicação de multa ao representante por litigância de má-fé.

É fundamental fazer a distinção: o parecer do Ministério Público não equivale à sentença definitiva do juiz. A palavra final sobre a representação e sobre eventual litigância de má-fé cabe à Justiça Eleitoral.

Caso repercute nos bastidores das Assembleias de Deus

O episódio ganha uma dimensão política ainda maior porque Samuel Júnior possui uma longa ligação com as Assembleias de Deus na Bahia. A própria biografia oficial da Assembleia Legislativa registra que ele atuou como assessor de comunicação da Convenção das Assembleias de Deus na Bahia entre 2008 e 2016. Atualmente, Samuel disputa a eleição de 2026 pelo PL.

E existe outro componente importante nessa história: Samuel Júnior e o pastor Abraão Reis efetivamente construíram uma dobradinha eleitoral em 2026.

Em julho, os dois anunciaram publicamente uma parceria para as eleições. Pouco depois, reportagem sobre encontro com lideranças evangélicas em Feira de Santana registrou que o presidente do Conselho Político da CEADEB declarou como objetivo da Convenção renovar o mandato de Samuel Júnior e eleger Abraão Reis deputado federal.

Já em agosto, Samuel iniciou sua campanha em Salvador ao lado de Abraão Reis, inclusive participando de atividades na sede da Assembleia de Deus na Bahia.

Portanto, há elementos públicos para afirmar que Samuel e Abraão passaram a atuar eleitoralmente em conjunto. O que não seria correto, sem documentação adicional, é afirmar como fato consumado que Samuel “traiu a Assembleia de Deus” ou “traiu o presidente da igreja”. Isso pode aparecer como acusação política de adversários ou interpretação dos bastidores, mas não como conclusão factual do Cidade Já News.

De acusador a alvo de questionamento

É justamente aí que a história ganha força política.

Samuel procurou a Justiça sustentando que não havia autorizado a associação eleitoral de sua imagem com Débora Santana. A defesa apresentou documentos e conversas; o pedido urgente do deputado foi negado; e, posteriormente, o próprio Ministério Público Eleitoral passou a defender a improcedência da ação e pediu que fosse examinada a conduta do parlamentar sob a ótica da litigância de má-fé.

Isso não significa que Samuel Júnior já tenha sido condenado por má-fé. Significa que existe um pedido expresso do Ministério Público nesse sentido, que ainda depende de decisão judicial.

Para Débora Santana, entretanto, os documentos representam uma importante vitória jurídica e política até este momento: a tese de que ela teria simplesmente utilizado a imagem do parlamentar de maneira unilateral encontrou resistência tanto na análise preliminar da Justiça quanto na manifestação posterior do Ministério Público Eleitoral.

Bastidores prometem novos capítulos

A disputa deixa de ser apenas uma discussão sobre um santinho eleitoral e passa a chamar atenção para as articulações políticas dentro de um dos segmentos religiosos mais influentes da Bahia.

Samuel Júnior construiu parte importante de sua trajetória nesse ambiente e, em 2026, aparece publicamente associado à candidatura federal de Abraão Reis. A CEADEB possui enorme capilaridade no estado; material institucional da própria Assembleia de Deus registra presença em todos os municípios baianos, centenas de campos e milhares de ministros.

Agora, com a manifestação do Ministério Público Eleitoral vindo à tona, uma pergunta inevitavelmente começa a circular nos bastidores:

se havia conhecimento e tratativas anteriores sobre o material com Débora Santana, por que o caso acabou levado à Justiça sob a alegação de associação não autorizada?

Essa resposta ainda deverá passar pelo julgamento definitivo da Justiça Eleitoral.

Por enquanto, uma coisa está documentada: Samuel Júnior pediu uma medida urgente contra Débora Santana e não conseguiu; depois, o Ministério Público Eleitoral opinou pela improcedência da representação e pela aplicação de multa ao próprio autor por litigância de má-fé.

O processo ainda não terminou. Mas politicamente, o caso já colocou fogo nos bastidores.

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